2.2.13

La Gioconda de Guadalajara


São Paulo, 17 de dezembro de 2012.

Apesar do apelido, hoje ardiam os topos da selva de pedra e a cuca de quem parecia ser íntima do inferno. E mesmo com o brilho ofuscante daquele sol as cores da cidade se decompunham num gradiente de tons de cinza acima e abaixo da terra. Nas raízes os tons se acentuavam num mosaico de expressões sérias, olhares frios, passos pesados. Em alguma estação do metrô da cidade da garoa a garota roubou as cores quentes daquele dia. Fazia dos corredores de concreto sua passarela e das pessoas observadores da antítese geográfica e dos grandes olhos negros no vermelho esnobe a nos fitar.

Cidad(ela)


17 de março de 2012.

Nada. Flui. Várias. Paralelas. Perpendiculares. Esquinas. Encontros. Horizontal. Entrada. Vertical. Saída. Infinita, infinita, infinita... Secciona. Tudo. Reparte. Separa. Guarda. Esconderijo. Uma. Prisão. Ninguém. Parte. Cidade. Ela. Urbana.

Processo de redesign de capa do livro "Príncipe das histórias: os vários mundos de Neil Gaiman"



CAPA ORIGINAL E REDESIGN


Como sugere o título e o estilo do inglês Neil Gaiman, que utiliza ficção, fantasia, suspense e/ou terror em suas criações, a capa é composta pela imagem centralizada do autor imerso num universo obscuro, como o mistério de suas histórias, e rodeado dos ombros para cima por alguns de seus personagens. O posicionamento dos personagens remete ao pensamento de Neil Gaiman, mostrando aquilo que ele pensa ou, nesse caso, foi pensado, criado por ele. São os “vários mundos” imaginados próximos ao seu lugar comum, a mente criativa de Gaiman (1).

Buscando um sentido oposto ao que pôde ser observado na capa original, o redesign (2) abandona o sombrio para estampar cores e imagem inspirada em Roy Lichtenstein, importante nome do movimento Arte Pop. O novo layout se distancia também por estar focado na diagramação da publicação mais famosa do autor, a HQ Sandman. A menção também ocorre na capa original e demonstra a importância de Sandman na carreira de Gaiman, mas surge ao equiparar criatura e criador no título do livro. Sandman, além de muitos outros codinomes, é conhecido também como Príncipe das Histórias.

A Arte Pop se adequa à proposta, à medida que “escolhiam tons vibrantes para criar deliberadamente efeitos ópticos dissonantes” (RAIMES, 2007, p.138) e conter entre seus criadores o pintor, escultor e artista gráfico Roy Lichtenstein, que, segundo Lopes (1996), teve sua obra iniciada a partir da apropriação de texturas e temas das HQs, transformando o banal em sublime.

O resultado cromático e aspecto modular ainda remete a outro estilo artístico, o De Stijl, que “era rigidamente matemático, visava a abstração total e era uma volta a formas geomátricas construídas com cores primárias” (REIMES, 2007, p.56).

4.12.12

Winsor MCcay além do doodle


O que é entendido nas terras tupiniquins por rabisco e sinônimos como traço e desenho, no inglês há a palavra doodle como equivalente. O vocábulo utilizado para definir aquele desenho que pessoas distraídas fazem, para a Google é a maneira como são chamadas as variações comemorativas de sua marca mutante[1], cujo discurso propõe “inovação, interação, ludismo, liberdade e comprometimento”. (KREUTZ; FERNÁNDEZ, 2009, p. 104). Segundo os autores (2009), os Doodles criados pelo designer Dennis Hwang significam vão além para o maior mecanismo de busca, pois representam também a força e liberdade criativa proposta pela identidade visual da empresa e a relação emocional com seu público à medida que, além de homenagear, conta histórias ou diverte o internauta com a interatividade já conhecida e possível em muitos deles.


Quase quatro anos depois de rabiscos, traços, desenhos ou doodles, a homenagem do dia 15 de outubro de 2012 não poderia ter maior ligação com tais palavras. Neste dia estava ilustrado e animado na página inicial do buscador o Doodle "Little Nemo in Google Land", trocadilho feito com Little Nemo in Slumberland, quadrinho criado em 1907 por Winsor McCay. O prestígio deve-se principalmente ao 107º aniversário do título, mas há também admiração reservada para a produção total do autor, cuja lembrança vale pela importância exercida nos quadrinhos e na Animação.
[1] “...as marcas apresentam um novo comportamento, que há de: participar da globalidade da organização; materializar o espírito, o sensível, as emoções; captar as expectativas do público; incitar o desejo de participação; representar o desejo comum; ter uma estrutura envolvente; romper com a visão mecânica, estática de uma imagem unívoca; ter traços de identidade que permitam ao espectador a identificação de seus valores no objeto observado. Essas são as características de marcas mutantes, uma prática comunicacional contemporânea: aberta, inovadora, artística, indeterminada, subjetiva, um jogo de ecletismos. É a natureza emocional da marca, que poderá ser programada ou poética”. (KREUTZ; FERNÁNDEZ, 2009, p.93)